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Alisar o cabelo torna um preto menos preto?

O ativismo esquizofrênico e a relação do negro com sua estética natural
Por: Nayara de Deus |  Foto: Divulgação / Eduardo Neratika |  Data: 24 de Setembro 2018
Alisar o cabelo torna um preto menos preto?

Cabelos crespos... cacheados! Tão lindos! Pena que amassam quando a gente vai dormir e ainda não inventaram um colchão com um buraco para encaixarmos só o rosto a fim de preservar o mesmo desempenho de nossos cachos do primeiro dia da lavagem.

Cabelos alisados. Facilitam o dia a dia já que o "fator cama" não interfere no efeito desejado, mas, também...quando a raiz natural começa a crescer anunciando ser preciso um retoque urgente, fica aquele aspecto meio esquisito. Uma base crespa por baixo dos fios alisados...Complicado.

Enfim, a verdade mesmo é que mulheres naturalmente lisas têm muito mais facilidades quando o assunto é cabelo. Na certa!alisar ou não os cabelos

Muitas pretas já disseram que amam o meu crespo, mas, que alisam ou, usam o alongamento artificial (famoso megahair) porque têm preguiça de cuidar dos naturais. Ou, por falta de paciência para esperar o cabelo crescer. Mesmo tranças e dreads, que carregam inegáveis características de ancestralidade, muitas vezes são a opção de quem também não quer ter de se dedicar muito à cabeleira.

O que é irritante, em todo esse processo, são as cobranças de boa parte dos movimentos ativistas raciais. A linha mais "xiita" da luta aceita o uso de tranças, daquelas que balançam, de efeito similar aos lisos, mas, tem preconceito com o alisado. O que para mim é engraçado, afinal, na minha concepção, tais tranças reproduzem mais a estética de cabelos naturalmente lisos, que do crespo legítimo.

Enfim...você se torna menos preto por alisar o cabelo ou, usar um megahair diferente da estrutura genética de sua cabeleira?

Sobre o meu crespo

Meus cachos naturais foram descobertos há 15 anos quando então, já morando sozinha, pude ter maior autonomia quanto a decidir o que fazer com meu cabelo.

Quando pequena, minha mãe seguia o fluxo de praticamente todas as matriarcas pretas do tempo dela mesma. Desde muito nova já passava aquela pasta de cheiro pouco agradável na minha raiz a cada 3 meses a fim de "soltar os cachos", como ela mesma dizia. A cada ritual trimestral me lembro do meu pai dizendo: "já estão fritando o cabelinho, é?!?", rs.

Eu, particularmente, achava o máximo o efeito do tal "relaxamento"! Ele não ficava liso, mas, os cachos ficavam mais soltos e, por isso, mais compridos. Nossa! Apenas adorava.

Tudo muito normal (ou, mais normal do que deveria ser) na vida de praticamente TODA família preta daquele tempo. Lembrando que nasci em 1984, e 'mammys', em 1950.

Cabelos Crespos

Ninguém até então tinha falado que eu era ´"menos negra" por ter a "arquitetura" dos meus cabelos, quimicamente modificada. Até que um dia sofri preconceito de ativistas negros que fazem a linha "xiita". Tudo por conta de minhas madeixas. Eu deveria ter 19 anos. E realmente, foi uma sensação bem ruim. Até porque, minha mãe sempre ressaltou a beleza da nossa raça e sugeriu reflexões acerca da posição do negro na sociedade. Nunca escondeu minhas responsabilidades enquanto única representante do povo preto nas escolas onde estudava e nos demais locais que eu frequentava.

E confesso que, não acredito ter me tornado mais negra quando optei por descobrir a beleza que estava por baixo dos fios modificados pela química que acompanhara meu trajeto de vida até ali. Época em que não haviam produtos especializados, nem táticas de transição capilar como as popularmente conhecidas hoje.

Me tornei apenas uma mulher que tivera que aprender a cuidar do próprio cabelo, colocar o relógio para despertar mais cedo para usufruir das maravilhas que é tê-lo natural e armado, característica que nos torna bem mais sexy, e mais jovens,em minha opinião.

E até se a opção de algum sujeito pelo alisamento for por falta de amor à própria raça, sinto dizer. Mas, o alisamento não te tornará uma pessoa mais feliz e menos negra, tampouco o livrará das mazelas sociais pelas quais fomos condicionados. Porque se até hoje a maioria afrodescendente alisou o cabelo com o objetivo de ser socialmente aceita, o plano parece não ter dado muito certo! rs.

Afinal, somos a maioria nesse imenso Brasil, no entanto, a parcela ainda menos presente nas universidades, propagandas, nos cargos de altos salários e até nas novelas que se passam na Bahia.

Não somos nós quem habitamos os bairros melhor localizados. Porque nos 'libertaram', mas, não nos permitiram residir centralizados. Ficamos às margens da sociedade.

Somos aqueles cuja carta de alforria não nos garantiu mecanismos de participar diretamente do mundo político, por exemplo. E mesmo quando quebramos essas estatísticas, assistimos um caso Marielle e até pedimos por respostas. Só que elas não vêm.

Mesma maneira como ficam as mães negras das periferias, locais onde diariamente ocorre o extermínio de dezenas de jovens sem que as famílias descubram o porquê das execuções. Sem que seja entregue ao menos um corpo morto para ser velado antes do último adeus.

Somos os mais atingidos por qualquer crise, qualquer reforma tributária, afinal, somos a casta mais pobre da sociedade. E se a comunidade negra ganha menos, claro que os desafios serão maiores, afinal, a esmagadora maioria padece no mercado informal das atividades remuneradas. Mal remuneradas. Sem qualquer amparo das leis trabalhistas e qualquer perspectiva de uma aposentadoria paga por fora.

O problema de boa parte do ativismo é a intolerância. O ativista que não tolera o semelhante que sofre, inclusive dos mesmos problemas que ele mesmo, e ainda julga ser melhor por ter o cabelo natural, atua pelo separatismo e ojeriza aos próprios ideais que defende. Desserviço.

Os tempos são de mudança de consciência, e há muito a ser feito. Questões meramente estéticas não devem tomar proporções que questões realmente sérias deveriam na agenda de debates por mudanças sociais!

Use o que quiser, faça o quiser sem prejudicar o próximo. Só não se esqueça que o verbo é "LUTAR". E que se AMAR é irrevogavelmente preciso. No formato crespo, liso, ondulado, careca, curto, comprido, alongado, chapado, colorido, descolorido, arrepiado...

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