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Leandrinha Du Art: “O meu corpo incomoda a sociedade”

Derrubando barreiras e enfrentando o preconceito, a militante transexual é pré-candidata a deputada federal pelo PSOL
Por: Paulo Sanseverino |  Foto: Eduardo Neratika / Portal Pepper |  Data: 05 de Julho 2018
Leandrinha Du Art: “O meu corpo incomoda a sociedade”

Portadora da Síndrome de Larsen, enfermidade rara que afeta as articulações desde o útero materno, em que muitas crianças morrem logo após o nascimento, mas esse não foi o caso de Leandrinha Du Art, 23 anos, transexual, cadeirante, militante pelos direitos do público LGBT e pessoas com deficiência e pré-candidata a deputada federal pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), de Minas Gerais.

Mineira, natural de Passos, filha de uma operadora de máquinas de uma indústria açucareira, Leandrinha é a mais velha de seus irmãos, um garoto de 19 anos e uma menina de 9 anos, aproveitou ao máximo sua infância, quando tinha oportunidade, em meio as brincadeiras, passava parte de seu tempo no hospital em busca de tratamentos para a correção de suas pernas, "fui obrigada a amadurecer muito cedo, tomava decisões muito fortes e sérias, mas minha infância foi normal, mesmo dentro do hospital eu tentava lembrar que eu ainda era uma criança, mas com responsabilidade de adulto, tinha dificuldade de montar um quebra-cabeça, mas tinha facilidade em ler o meu eletrocardiograma, era uma coisa muito desnivelada em relação as outras crianças".

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Leandrinha foi uma criança empoderada, mesmo com rótulos e imposições feitas pela sociedade, não se deixou abater, nunca foi agredida fisicamente nem sofreu preconceito, pelo contrário, a família é a base de sua vida onde recebeu acolhimento, respeito e proteção. Vítima das circunstâncias? Nem um pouco. "Fiz das minhas adversidades uma oportunidade".

Na adolescência não encontrava referências, sentia-se confusa em relação a sua sexualidade, "hoje em dia as pessoas estão se conhecendo mais cedo, isso é muito importante, é necessário saber que cada um tem o seu tempo, o contexto familiar que eu vivo, não é o que o jornal anuncia, eu sei que sou uma pessoa privilegiada e tenho uma família muito foda, mesmo com essa LGBTfobia que o Brasil vive, eu não sei o que é isso, mas minha tarefa como pessoa pública é lembrar que essas pessoas são mortas por ser quem são".

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Sua referência atual, ela mesma, "as pessoas transexuais, deficientes, elas existem, mas não com uma projeção que merecem, mas saber que elas existem, isso me acalenta, antes eu me escondia, hoje eu faço questão de ser olhada e tenho consciência que o meu corpo incomoda a sociedade, e eu quero incomodar muito".

Portal Pepper: O que falta para melhorar a situação do deficiente físico no país?
Leandrinha Du Art: Falta representatividade, falta pessoas dispostas a militar por nós, quando você olha para o parlamento onde possui a maioria de brancos, senhores conservadores, fazendeiros e evangélicos, onde eu entro? onde meu corpo entra?, então precisamos lutar por representatividade.

PP: Por tudo o que passou na infância e adolescência. Hoje olhando no espelho, você sente vergonha do seu corpo?
LD: Nem um pouco. Hoje se eu não optei por nenhum procedimento estético, eu optei por amar meu pau, é porque estou bem resolvida com o meu corpo. Existem muitas transexuais que precisam disso para se sentirem realizadas, eu não preciso, me entender como um corpo deficiente me fez desprender da ditadura da beleza trans, onde a trans deve ter 'cabelão', cintura fina e bumbum grande. Nunca passou pela minha cabeça fazer uma cirurgia de mudança de sexo, uma vagina não me tornaria uma pessoa mais respeitada e muito menos influenciaria na minha militância.

Entrevista Leandrinha Du Art

PP: Pré-candidata a deputada federal pelo PSOL. Quais são suas principais ideias?
LD: Em relação a projetos não posso falar. Minhas principais pautas são destinadas aos direitos humanos, direitos básicos a vida, tenho que lembrar que essas mulheres existem e precisam de apoio, que pessoas com deficiência existem e precisam também de apoio, que movimentos sociais estão enfraquecendo por falta de respaldo público e político, além das minhas pautas pessoais, pessoas lgbt's e deficientes, tenho mais pessoas que buscam representatividade é por essas pessoas que me proponho a ser instrumento do povo.

PP: O que falta para a política brasileira dar certo?
LD: Essa resposta muda para mim todo dia. Falta empatia, falta você entender que a luta do outro é sua luta também, não podemos olhar para nossos umbigos e descartar todo o caos que o país vive, não dá para ganhar R$ 39 mil e não fazer porra nenhuma.

PP: Caso Marielle Franco. O que fazer? Quem cobrar?
LD: A luta da Marielle só me deu mais certeza que o campo que eu quero entrar, é um campo perigosíssimo, até quando sua voz incomoda para ser silenciada, eu sei que a minha incomoda muito. Marielle morreu, mas a voz dela ecoa, precisamos fazer com que a morte dela valha. A Marielle Franco foi mais uma por um sistema inteiro silenciado. A morte dela é um questionamento até hoje, todos se perguntam, quem matou Marielle? Falta essa busca verdadeira para saber quem a matou, precisamos saber quem fez isso, a morte dela não pode passar em branco. E nós militantes corremos esse risco, estamos na frente de tiros. Essa sensação de perigo é saber que estou fazendo a coisa certa.

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PP: O Brasil é o país que mais mata o público LGBT no mundo. Você tem medo de morrer por transfobia?
LD: Medo de morrer não tenho, mas tenho medo de morrer por qualquer motivo e ninguém lembrar das minhas lutas, ninguém fazer valer o que eu construí. Eu ando na minha cidade mais tranquila, mas quando ando em São Paulo, onde muita gente me aborda, e muita gente me adora, mas também muita gente me odeia, fico receosa. Se eu morrer hoje por LGBTfobia, eu sei que minha luta não foi em vão, eu fiz muito, abri um debate que ninguém discutia, construí histórias com base na minha.

PP: Você já sofreu alguma ameaça?
LD: Sempre. Na minha página sempre rola, é babado. Ataques de ódio é o que mais tem na internet, mas pessoalmente não, na realidade eu aprendi a lidar com isso, com esses ataques de ódio, essas pessoas não mostram a cara, se escondem atrás de avatares, criaram um grupo que me ataca chamado CDG (Coisas de Garoto), esse é um grupo de punheteiros que não tem nada para fazer, que se dedicam em fazer perfis fakes para derramar ódio em cima dos outros. Essas pessoas precisam urgente saber o que é educação, empatia e respeito, vamos caminhar para uma vida perfeita quando a minha sexualidade não incomodar na sua religião e vice e versa e quando a cor da sua pele não afetar a minha sexualidade, quando a condição do seu corpo não afetar minha religião, não vivemos numa bolha, precisamos nos atentar a quem está em nossa volta, não precisa compactuar com a mesma ideia, mas respeitar.

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PP: Ir para as ruas ainda é o melhor caminho para ganhar voz na sociedade?
LD: Ir para a rua pode ser sim a revolução, hoje temos alguns cenários que deram certo devido a milhares de pessoas que foram para as ruas. Precisamos ter a certeza que nós comandamos esse país, se todos tomassem consciência disso o país não estaria como está. A mídia atrapalha muito, desviando os olhares para fatos que importam e dando visibilidade para outros não importantes, mas temos mídias alternativas que faz com que essa porra aconteça e lembram de determinada parcela da sociedade e mostram que as coisas estão acontecendo, um desses veículos é o Midia Ninja, ao qual eu faço parte, onde sou colunista, que mostram esse outro lado, enquanto o Neymar está caindo, a mídia alternativa está soltando notas que estão colocando agrotóxicos em nossas comidas.

PP: O que é representatividade para você?
LD: É quando eu consigo ter um lugar dominado pelos heterossexuais, e consigo contar sobre minhas bandeiras, contando sobre minhas pautas, é quando eu tenho um sem teto e uma indígena concorrendo a Presidência da República, é quando eu tenho uma Leandrinha Du Art, trans e cadeirante, concorrendo ao cargo de deputada federal, é quando tenho Duda Salabetti, trans e professora, concorrendo ao Senado, é quando eu tenho Júlia Santos, concorrendo a deputada estadual, é toda essa pluralidade ocupando esses espaços e tentando fazer deles o mais representativo possível.

PP: Você pretende construir uma família e ter filhos?
LD: Filhos sim, família não sei.

PP: O que é apimentar para você?
LD: Apimentar é por mais que a sociedade imponha que você se encaixe, se enquadre e se engesse, apimentar é você falar, não meu bem, não vai rolar, eu vou ser quem eu sou. Aceite e lide com isso.

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