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Renato Russo faria 55 anos

Ele viveu a ditadura e se foi numa democracia
Foto: Divulgação |  Data: 29 de Março 2015
Renato Russo faria 55 anos

Por Alisson Matos

Falar em rock nacional sem mencionar a Legião Urbana é daquelas insanidades imperdoáveis. Vivia-se no Brasil da ditadura, da transição Geisel – Figueiredo, aquele que preferia o cheiro dos cavalos ao do povo. E, pelo que consta, era recíproco. O país caminhava para a redemocratização que à época, se percebia, estava mais perto do que longe. Esperava-se a realização de um sonho.

Em 1982, enquanto o país parava para acompanhar a Copa do Mundo da Espanha, a seleção do Telê, do Zico, do Sócrates, do Falcão e companhia, o que viria a ser, para muitos, a maior banda que o Brasil viu começava a surgir. A Legião Urbana chegava com uma voz destoante, voltada, sim, para os protestos, mas com uma sensibilidade musical que só aqueles que entendem a alma são capazes de produzir.

A complexidade humana talvez nunca tenha sido tão bem retratada como nas composições de um tal Renato Manfredini Júnior. Um mito, daqueles capazes de ensinar mesmo após a morte. Insubstituível e inigualável. Nascido no Rio de Janeiro, o garoto morou em Nova York, voltou para Ilha do Governador, até se instalar em Brasília, em 1973. E de lá conquistaria o país.

legião urbana

A primeira banda foi o Aborto Elétrico, ao lado de Felipe, Flávio Lemos e do sul-africano André Pretorius. Foram quatro anos de rock, parcerias, amizades e discussões. Até que uma briga entre Felipe e Renato Russo pôs fim a história do quinteto.

Após o fim do grupo, a genialidade de Renato, formada por problemas na adolescência, perguntas sem respostas e utopias, vinha à tona. Ele começou a compor e se apresentar sozinho. É bem verdade que a fase solo durou pouco tempo, pois o cantor se juntou a Marcelo Bonfá, Eduardo Paraná e Paulo Guimarães para formar a Legião Urbana. Surgia ali um ícone.

Os primeiros shows serviram para mostrar quem era de verdade e quem era de mentira. Dois integrantes, Eduardo Paraná e Paulo, saíram da banda. Ico Ouro Preto assumira a guitarra substituído, logo depois, por Dado Villa-Lobos. À frente do grupo, Renato Russo entrava nas casas do Brasil inteiro sem pedir licença. O sucesso era estrondoso, a identificação magnífica e a sensação de que as letras eram compostas exclusivamente para cada fã.

Canções como Tempo Perdido, Pais e Filhos, Será, Índios, Teatro dos Vampiros, Eduardo e Mônica, Vento no Litoral e tantas outras eram ouvidas demasiadamente e não se cansava. Aliás, escuta-se até hoje sem arrependimentos.

O patamar atingido pelo grupo é incomparável. Tanto que no dia 11 de Outubro de 1996, numa madrugada, com apenas 45 quilos, em consequência de complicações causadas pela AIDS, Renato Russo dava adeus à vida. O desconforto nacional era evidente e as lágrimas da nação escorriam país a fora.

renato russo e filho

Uma geração que crescera a escutar as obras primas de Renato Russo perdia um líder, um exemplo. As músicas compostas por ele, que tanto fizeram compreender algumas questões, não explicava o motivo da sua ida. Chorar, sem entender, era a única alternativa.

O músico deixou um filho, muitas lições e uma mensagem que nem o tempo será capaz de apagar. Ele viveu a ditadura e se foi numa democracia. Assumiu a homossexualidade quando a mesma era um tabu. Contraiu o vírus HIV e deixou um mundo de esperanças.

Esse fora Renato Russo. Um mito. E tão impossível quanto falar em rock sem falar em Legião Urbana é não sentir um pingo de raiva de Deus – se é que ele existe – por ter levado um ícone quando ele viveria o que sempre buscou na vida.

Uma pena.

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